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Amanhecer sem história




Respirava a ausência do teu corpo,
na penumbra da tua alma...
Havia no ar um perfume,
um desejo ou a memória
de um sonho...
Acordava na manhã um vazio
sem amparo, uma solidão sem nome...
Procurei vestígios de ti,
do teu corpo, quente e aberto...
Procurei em mim,
na manhã que rompia,
a presença ou apenas o cansaço
da noite acordada morta...


Barão de Campos

Na tua morte







Hoje não tens forças para morrer,
Nem hoje nem amanhã, nem depois…
Aguardarás em silêncio a dor final,
temendo o sofrimento…
Serás apenas mais um entre todos,
implorando em agonia…
Estarás absolutamente só,
enfrentando  algo único…
Confuso, o tempo enrola-se
na garganta, sufoca-te
sem misericórdia…
Esqueceste por quem esperavas,
Não consegues adormecer
nem naufragar…
Ninguém ensopará as tuas lágrimas,
naquele que será o teu último pranto…
Recordas o que foste
no sonho do que poderias ter sido…
Talvez esboces um grito,
talvez pronuncies a palavra Mãe,
talvez ainda tenhas folego…
Sabes e sentes a tua derradeira solidão,
uma tristeza sem contornos…
Falta apenas a etapa final,
o trespassar lento da morte,
da tua morte…




Barão de Campos

No silêncio da madrugada



No silêncio da madrugada, desta madrugada que será a única entre tantas outras madrugadas sem nome, procuro nas sombras os rostos de mil vidas, palavras para dizer-me...


No silêncio mudo da madrugada que insiste em camuflar a dimensão solar das coisas, adormeço a dôr incendiada...


Escuto dentro do silêncio a solidão da impossibilidade, a recta infinita desta suspensão eterna...

Procuro a memória do dia, tentando resistir mais umas horas...

Procuro os meus olhos dentro do meu rosto, como se ainda fosse possível recuperar as imagens que os habitaram...

Muito em breve...


Pedras frias, lugares vazios de alguém,
mágoas de vidro, cutelo da alma,
memórias caídas,
folhas mortas...
Sombras de mármore,
nas rochas da solidão...
Lugares sem regresso,
paisagens nuas e gélidas...
Instante hesitante,
lábios cerrados, secos, feridos...
Palavras inauditas, sentimentos sem objecto,
sem esperança...
Últimos gestos, a tristeza da impossibilidade absoluta...
Breve, na tal madrugada sem rosto,
o fim impõe-se, sem trégua ou adiamento...
Descerás ao cadafalso de ti próprio,
lembrarás momentos únicos,
sentirás o cansaço do caminho,
abandonarás os amores da tua vida,
na dor de sentires que o teu tempo esgotou-se,
condensarás toda a revolta
num gesto violento e último
sem retorno...

Barão de Campos


Nos últimos momentos...



Nos últimos momentos, talvez procure o teu calor, a tua ternura, ou apenas decida abandonar-me na solidão solene do último olhar...

Nos últimos momentos, é provável que a fragilidade seja próxima da orfandade, é natural que te pegue na mão para que a partida seja menos dolorosa...

Receio a aflição dos instantes derradeiros, sabendo-os finais...
A solidão comporta uma forma muito especial de ante-câmara da morte...

Confesso que não deveria estar a falar da morte, da minha morte, quando a vida ainda me pode surpreender...

Não sei, a tarde caiu densa e sufocou o meu coração e a minha alma magoada de uma dôr indizível...

Nas tuas mãos








Das tuas mãos brotavam palavras,

das tuas mãos nasciam sonhos,

que se misturavam com os meus...


Próximas e distantes,

minhas e tuas,

alternavam entre o tudo e o nada,

ora tinham a expressão do amor,

ora o desalento frio do jogo...


Lembro-me do toque tímido,

da memória sem trégua,

da insensatez sensata,

nas mãos desaguava um rio sem margens,

onde te escondias até naufragares...

Inútil







Ficou mais nítida a mensagem,
menos confusa nos gestos...
Ficou mais nítida a miragem,
nos sentimentos proíbidos...
Ficou mais pobre a alma flor,
na sua promessa primaveril...
Ficou mais nobre a alma pedra,
na cascata adormecida...
Ficou mais distante a voz de ti,
neste lugar de silêncio...
Ficou mais fria
a tua presença ausente...

Lágrimas...










A manhã é opaca,

as lágrimas sulcam o rosto

num movimento lento e lancinante...

Acordo dentro do pesadelo,

procuro algo que o negue,

uma evidência, uma materialidade...

A lucidez cega-me

na sua crueldade sem trégua...

A melancolia e a dôr

queimam...

Amo-te...


Rostos sem rosto...








Desço as palavras, tropeço nos degraus,

sustenho a respiração, desço mais um lance...

Frias e gastas, tal como pedras,

as palavras rebelam-se,

gritam palavras de ordem

na praça das recordações...


Nas ruas ecoam vozes esquecidas,

palavras abertas, gritos suspensos,

gemidos sem rosto...


Presenças intercaladas na solidão amarga,

poentes sem côr,

imagens que se soltam nas esquinas

cansadas de serem dobradas...


Abandonados,lentos, sem rumo,

escutam-se passos sem corpo,

perdidos na inexistência...


Perdido...










Procuro um lugar longe de mim,
do meu olhar cansado de não adormecer...

Preciso amordaçar a dôr e o medo,

libertar-me nos teus braços,

mesmo sabendo que pode ser o último abraço...

Sorrir nos teus lábios a côr dos meus,

amar-te sem antes nem depois,

ultrapassar-me sem ter consciência disso...
Ser Feliz sem o Pensar...

Sinto o Tempo a esvair-se...









Este pode ser o instante último dos pensamentos
que ainda me restam…
Instante de dor consentida na mágoa
Alucinante da saudade…
Instante último de um tempo
Que não sendo meu, senti que um dia era minha pertença…
Não lhe conhecia o seu rosto,
Não imaginava os seus contornos…
A sua presença era visível na ausência…
Contudo, o hábito do novo dia,
Criava em mim a ilusão…
Não pensava o tempo a finar-se
Levando-me consigo…
Vivia numa inconsciência só geneticamente consciente…
Acreditava na Eternidade como fazendo parte dela….
Hoje, sinto a angústia das horas,
O anunciar de novas perdas…
Ausências que anunciam outras ausências…
Agora o coração chora baixinho,
Não vá o tempo acordar de mau humor…
A dor que se expande na Alma,
Uma dor cansada, rendida…
A angústia dos fins, das inexistências infindáveis…
As vozes, os rostos, os passos, os sorrisos e as lágrimas
Que partiram para sempre…
Acordo e sei que amanhã voltarei para a sua inexistência…
Hoje tenho a clarividência de saber
Que a maior parte das coisas
Que me disseram que eram as mais importantes,
Valiam menos que o mais fedorento excremento…
Hoje, mais que ontem, menos que amanhã,
Tenho a certeza que nos militarizam a mente
Durante dois terços da vida…
Mentindo-nos sobre os valores autênticos e nobres da vida…
Durante dois terços da vida enganam-nos
Com slogans publicitários de Poder, Juventude, Riqueza,
Incitando-se a requerer o ingresso no mundo dos poderosos,
Oferecendo-se o primeiro lance ainda na condição de escravos…
Um dia, de repente, convencem-nos que já não precisam de Nós,
Somos velhos, inadequados, desactualizados, inúteis…
Tecnologicamente Incapazes…
Tentam dizer-nos que o Amor é sinónimo de Pornografia…
Reduzem o valor de um beijo, de um abraço ou de um sorriso…
O valor de tudo reside na susceptibilidade de poder ser convertido em valor económico…
Os amigos de ontem, hoje são homens e mulheres de negócios sem tempo
Para investir em relações sem valor monetário…
Todas as pequenas coisas de que a vida é feita,
São coisas ridículas….
Devemos envergonhar-nos das nossas emoções…
Somos patéticos…
Lentamente, acabam por nos abandonar num lugar sem nome,
Onde nada nos é familiar…
Um lugar, onde, quantas vezes, durante a Noite nos erguemos,
Como fantasmas, procurando na escuridão os velhos interruptores…
Quantos sons pensámos ter escutado…
Por instantes, pequeninas fracções de Tempo,
Quase sentimos Esperança,
Quase podemos sentir o calor do nosso velho cão roçar as nossa frágeis pernas…
Quase Acreditamos num Milagre,
Um Milagre antes do último instante…

Numa tarde sem tempo...










Debruço o pensamento na tua direcção e não vislumbro o teu rosto,

algo ou alguma coisa de estranho, convence-me que exististe,

talvez, tenhas feito um gesto, talvez um som, talvez tenhas sorrido,

neste tempo onde não te reconheço nem invento uma expressão,

rasgo a neblina que te esconde, espreito em busca de um rosto,

um rosto, onde os lábios contrastem com o olhar...

Procuro um rosto que prove a nossa existência breve...

Cordilheira de Sonhos...









Quentes e melodiosos, os teus olhos flamejavam,

suspendias o pestanejar e parecias querer dominar

a eternidade dos instantes com o olhar...



Dentro dos teus olhos vagueavam sombras sem nome,

como se os teus olhos fossem tocas, esconderijos...

Havia dentro do teu olhar um pensamento, uma palavra, por dizer...



Nos teus olhos navegavam oceanos, levantavam-se tempestades,

dos teus olhos partiam e chegavam gestos sem amanhã...

Nos teus olhos ancoravam navios fantasmas
...

Noite dentro da Noite...












Noite de mil Noites, dobrada sobre a madrugada,
Noite amedrontada pelo alvorecer lento e morno,
Noite cansada de não ser dia,
Noite humilhada na escuridão...
Noite perdida de si, dos seus labirintos...
Noite...

Dentro da Noite...











Sombras negras povoam a minha mente,
algo em mim não sou eu,
sinto uma dôr pressentida,
parece-me escutar vozes distantes...

Busco nas palavras o aconchego breve,
o calor de pensar e escrever,
neste acto único e inútil...

Cheguei ao fim das palavras,
sem articular um som...
Dentro de mim, tudo é silêncio,
um silêncio sem rosto...